Palavras Cruzadas em papel ou digital?

13.2.14

Dia Mundial da Rádio

Para assinalar o Dia Mundial da Rádio, publico, na íntegra, a entrevista que dei ao Emanuel Monteiro, um aluno da Universidade Católica Portuguesa que desenvolveu um programa de rádio para a cadeira de Comunicação Radiofónica. No final da entrevista deixo o link para o programa (simulado) onde nem sequer olhei para o papel onde tinha as perguntas/respostas... (ficam a saber que detesto ouvir a minha voz... quase todos detestam, é certo... eu detesto, mesmo)... ;-)

Questão 1:
Boa Tarde, Paulo. Depois de 20 anos, não está saturado de dicionários e de palavras cruzadas?

Não… gosto cada vez mais de criar Palavras Cruzadas.

Questão 2:
O Paulo não era conhecido. Fazia o seu trabalho e não dava a cara, mas recentemente criou um blogue e uma página de Facebook. Porquê quebrar o anonimato?

Primeiro o blogue, em 2007… o Facebook é mais recente, final de 2008. Principalmente, por uma questão de “sobrevivência”. Com o surgimento do Sudoku e software gerador de Palavras Cruzadas senti que tinha de fazer algo para continuar a ter trabalho… criei o blogue… mas mais importante do que quebrar o anonimato foi mostrar um outro lado das Palavras Cruzadas, mais criativo, mais interativo… tentei dignificar o passatempo que adoro… se não fosse isso, muito provavelmente, não estaria aqui hoje a falar de Palavras Cruzadas.

Questão 3:
Recuemos agora ao início da sua carreira. Como descobriu que a sua vocação era criar palavras cruzadas?

A minha vocação estava ligada às artes… curiosamente, as letras nunca foram o meu forte… e acho que foi isso que me levou às Palavras Cruzadas… o tentar conhecer melhor o vocabulário da nossa língua… comecei por ver o meu pai a fazer as Palavras Cruzadas das revistas e jornais e um amigo que tinha por hábito comprar revistas de passatempos nas férias… segui-lhes os passos… um dia, no atelier de Artes Gráficas onde trabalhava, surgiu a oportunidade de criar uma página de passatempos para uma revista sobre cinema que produzíamos… o atelier fechou, editei em conjunto com um colega uma revista de Passatempos… a revista levou-me até à Agência Feriaque com a qual passei a colaborar… estávamos no ano de 1990… até hoje.

Questão 4:
Para um trabalho destes o que é que é mais importante, a imaginação ou a pesquisa intensa pelos dicionários?

Os dicionários são a principal ferramenta… a imaginação faz com que um jogo de Palavras Cruzadas chegue à bonita e respeitosa idade de 100 anos com a capacidade de cativar e surpreender ainda por muitos mais… venham mais 100…

Questão 5:
Conte-nos, como se processa a criação de um quadro de palavras cruzadas?

Hoje em dia temos três opções… clicar numa tecla e o computador faz sozinho, utilizar o computador como base de dados e auxiliar, pegar numa folha quadriculada, lapiseira e borracha. Depressa constatei que a primeira opção não era a solução… se não a tivesse excluído, quase por completo, não teria hoje esta profissão. Ou seja, utilizo o computador como uma base de dados onde consigo facilmente ver que palavras cabem num certo espaço... cabe a mim decidir que palavra utilizar… mas continuo a utilizar o papel, a lapiseira e a borracha. Normalmente, começo por escolher uma conjunto de palavras que serão o “esqueleto” do passatempo… palavras essas que estão relacionadas com um tema ou são encontradas durante a leitura… tenho por hábito anotar palavras durante a leitura… leio muito, essencialmente autores lusófonos, e tenho já um considerável acervo de excelentes palavras para utilizar. Escolhidas essas palavras, os tijolos (alguns muito valiosos), há que segurá-los com “cimento”, ou seja, há que ocupar os espaços que sobram com as habituais pequenas palavras muito comuns nas Palavras Cruzadas tentando não repetir muito (principalmente quando tempos a responsabilidade de criar passatempos diários para jornais) e não abusar das quadrículas pretas… depois há modos de construção que facilitam ou dificultam esse processo de construção… ficaríamos aqui algumas horas a falar sobre isso… eu tenho mais de 20 anos de experiência e ainda procuro novas formas de preencher uma grelha de Palavras Cruzadas.

Questão 6:
Os Média, principalmente aqueles em suporte físico, como os jornais e as revistas, estão a atravessar uma crise que todos reconhecemos. O negócio das palavras cruzadas também está em crise ou as palavras cruzadas ainda têm trunfos guardados para o futuro?

Sim, é verdade… há muito que se anuncia o fim dos jornais e as Palavras Cruzadas e as Palavras Cruzadas têm um relação direta com esses meios de comunicação impressos… o papel é ainda, a meu ver e não só, o suporte mais nobre para um jogo de Palavras Cruzadas (há muitos cruzadistas que compram o jornal só por causa das Palavras Cruzadas). Costumo dizer, mais ou menos na brincadeira: “quando os jornais terminarem, lanço um jornal de Palavras Cruzadas”. Não temo o futuro porque, felizmente, tenho outro tipo de trabalhos e muitas ideias que pretendo pôr em prática. Em 2011 realizei o sonho de levar as Palavras Cruzadas para as livrarias… consegui um contrato com uma editora do grupo Bertrand, a Quetzal, que lançou o livro ‘Palavras Cruzadas com Literatura’. Tenho uma excelente relação com os professores que utilizam passatempos nas aulas. As Palavras Cruzadas passaram a ir às Escolas. Este ano pretendo editar o ‘Sabe Mais k(que) os teus Pais’, um projeto que reúne Palavras Cruzadas para os mais novos com histórias e ilustração onde não estou sozinho (colaboram comigo a escritora Sílvia Alves e a designer Maria del Toro)… e depois há o digital… ou seja, fiquem os cruzadistas descansados que as Palavras Cruzadas ainda têm trunfos para o futuro.

Questão 7:
Para que publicações trabalho o Paulo?

As principais: Jornal de Notícias, Público, revista Caras, Selecções, Jornal Voz de Trás-os-Montes, Contacto (jornal do Luxemburgo), Portugal Post (jornal da Alemanha)…

Questão 8:
Diga-nos assim as cinco palavras mais difíceis e menos comuns que costuma utilizar nos seus passatempos, para aprendermos em 30 segundos.

Digo mais que cinco. Uredo (comichão), Atril (suporte para leitura de livros ou pautas de música), Parma (escudo circular, usado entre os romanos), Frol (espuma das ondas do mar), Perorar (falar em estilo oratório, terminar um discurso), Pexote (caloiro, novato), Blandícia (mimo)… isto para fugir às mais comuns mas que são difíceis para quem não faz habitualmente Palavras Cruzadas: Li (medida itinerária chinesa = 576m), Ut (antigo nome da nota musical dó, Ur (pátria de Abraão, Aar (rio da Suíça)…por fim três palavras que me estão muito ligadas Ósculo (beijo), Amplexo (abraço) e Xurdir (fazer pela vida).

Questão 9:
Uma última questão. Uma vez que as palavras cruzadas são boas para alargar o conhecimento de vocabulário e para exercitar o cérebro, diga-nos que figuras do panorama político nacional precisam de parar meia hora/uma hora por semana para fazer palavras cruzadas?

Os políticos que não fazem Palavras Cruzadas são mesmo um caso perdido… para os que fazem apenas posso prometer que irei utilizar com mais regularidade palavras como: Pessoas, Respeito, Dignidade… talvez tenham um rebate de consciência… infelizmente, não domino a língua alemã…

Ligação relacionada (falo a partir do minuto 7:33):

Amplexos e ósculos!...

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